A IA faz os planos. Não faz o vídeo
Quase todos os dias recebo uma mensagem de alguém que tentou primeiro fazer o vídeo com IA. Uns passaram um fim de semana a escrever prompts e nunca chegaram a um vídeo acabado. Outros chegaram, e não gostaram do resultado.
Não acho que tenham feito mal em tentar. As ferramentas impressionam, e eu também as uso. Mas as mensagens descrevem quase sempre o mesmo problema, e não é o que as pessoas esperam.
Mesmo quando parece real, não funciona
A maior parte do que me mandam é lixo gerado por IA: caras que mudam de plano para plano, mãos com dedos a mais, texto que se desfaz em rabiscos, tudo com o mesmo brilho de plástico. É esse o ponto de partida habitual.
No melhor dos casos, as imagens parecem realistas plano a plano. A luz é boa, as caras aguentam, o produto está lá. Mas veja-se do princípio ao fim e continua a não acontecer nada. Não há razão para continuar a ver depois dos primeiros três segundos, a mensagem chega tarde ou não chega, e o fim limita-se a parar.
Parecer realista nunca foi o que fez um vídeo bom. Um anúncio funciona pelo que fica de fora, pelo que vem primeiro, pelo tempo que se segura um plano e pelo sítio onde a música muda. São decisões de montagem. Um gerador dá-lhe um plano bonito. Não faz ideia se esse plano pertence ao seu vídeo, nem onde.
Porque é que horas de prompts não chegam lá
Escrever prompts é uma forma lenta de montar. Cada tentativa sai um pouco diferente, por isso não dá para ajustar uma coisa e manter o resto. Uma mão muda, um logótipo derrete, alguém que estava de casaco azul aparece de verde. Corrige um plano e perde outro.
Numa timeline consigo mudar um corte em quatro frames, trocar uma take, mover a música meio tempo. Esse controlo é o trabalho todo, e é para isso que serve um programa de edição como o Premiere, o DaVinci Resolve ou o After Effects. Uma caixa de texto não o dá.
Como eu uso a IA
Uso-a onde poupa tempo sem decidir nada: limpar áudio, transcrever entrevistas, prolongar um fundo, gerar um plano que nunca foi filmado quando o stock não o tem.
A diferença é que a uso dentro de uma montagem. Sei do que o vídeo precisa antes de gerar o que quer que seja, por isso peço um plano concreto em vez de um filme inteiro, e quando sai mal corrijo na timeline em vez de recomeçar. É saber montar que torna a ferramenta útil.
Se já tentou
Mande-me o que tem. Os planos gerados, os prompts que ficaram perto, a versão de que não gosta. Muitas vezes há bom material ali dentro que só ainda não foi montado, e é mais rápido partir dele do que começar de novo.
Se ainda não começou, diga-me para que é o vídeo e onde vai passar. Isso decide mais do que qualquer ferramenta. Fale comigo e eu digo-lhe o que vale a pena gerar e o que não vale.
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